Um stand em Aveiro comprou um Mercedes GLC 220d de 4 anos na Alemanha em Março de 2026 por 28.500€. Somou transporte (1.100€), COC (280€), inspecção B (94€), matrícula IMT (155€), e um ISV que o dono estimou “em cerca de 3.500€”. A nota de cobrança da AT veio a 6.842€. Diferença de 3.342€ que devorou a margem toda numa viatura que estava marcada a 39.900€. Não foi o mercado. Foi a leitura errada da Tabela B WLTP para diesel com 149 g/km.

Este guia percorre o ISV em 2026 para stands preparadores e importadores UE: Tabela A (cilindrada), Tabela B (CO₂ WLTP), Tabela D (redução uniforme desde Janeiro 2025), regime PHEV com o novo limite de 80 g/km Euro 6e-bis, passos oficiais de legalização, custos reais somados e os nichos onde a importação continua rentável em 2026. Dados verificados no Portal Aduaneiro AT, DR, IMT e Código do ISV.

OE 2026 e ISV: o que mudou (e o que se manteve)

A Lei n.º 73-A/2025, que aprovou o Orçamento do Estado para 2026, não subiu taxas do ISV. Tabelas A e B mantêm-se iguais a 2025. A única alteração estrutural relevante para stands importadores é técnica: o limite máximo de emissões para acesso ao desconto de 75% em híbridos plug-in subiu de 50 g/km para 80 g/km em viaturas homologadas sob o novo standard Euro 6e-bis. Não é benesse fiscal — é ajuste para não penalizar veículos pela mudança de método de homologação (o Euro 6e-bis mede CO₂ de forma diferente e valores sobem 15-25% face ao método anterior).

O restante regime — Tabela D (redução por idade), isenção total para BEV/hidrogénio, adicional diesel de 500€, regime N1 — mantém-se integralmente. Também não foi tocada a reforma de 2025 que uniformizou a redução por idade às duas componentes (ver secção Tabela D).

Tabela A ISV 2026 — Componente Cilindrada

A primeira componente do ISV depende exclusivamente da cilindrada. Aplica-se a ligeiros passageiros (gasolina, GPL, GN). Para gasóleo/diesel, o total é acrescido de 500€ fixos (adicional diesel).

Cilindrada (cm³) Taxa por cm³ Parcela a abater
Até 1.000 1,09€ 849,03€
1.001–1.250 1,18€ 850,69€
Mais de 1.250 5,61€ 6.194,88€

Fórmula: ISV Tabela A = (cilindrada × taxa) − parcela a abater. Um motor 2.0 (1968 cm³) paga (1968 × 5,61) − 6.194,88 = 4.849€ na componente cilindrada, antes de redução por idade.

O adicional diesel de 500€ é dispensado quando emissões de partículas < 0,001 g/km (raramente aplicável a diesel real). Para ligeiros de mercadorias (N1) o adicional cai para 250€.

Tabela B ISV 2026 — Componente Ambiental (CO₂ WLTP)

A segunda componente incide sobre as emissões de CO₂ homologadas em ciclo WLTP. É aqui que a maioria dos stands perde margem por má leitura: os saltos entre escalões são grandes e uma diferença de 5 g/km pode representar 1.500€ ao ISV.

CO₂ (g/km WLTP) Taxa por g/km Parcela a abater
Até 110 0,44€ 43,02€
111–115 1,10€ 115,80€
116–120 1,38€ 147,79€
121–130 5,27€ 619,17€
131–145 6,38€ 762,73€
146–175 41,54€ 5.819,56€
176–195 51,38€ 7.247,39€
196–235 193,01€ 34.190,52€
Mais de 235 233,81€ 41.910,96€

Pontos de corte críticos:

  • 145 → 146 g/km: taxa salta de 6,38€ para 41,54€ por g/km. Uma viatura a 149 g/km paga na Tabela B: (149 × 41,54) − 5.819,56 = 369€. A 145 g/km paga: (145 × 6,38) − 762,73 = 162€. Diferença de 207€ por 4 g/km.
  • 195 → 196 g/km: taxa salta de 51,38€ para 193,01€. Diferença gigante — evitar viaturas nesta fronteira.

ISV mínimo total (Tabelas A+B, antes de redução): 100€. Para gasóleo, valores WLTP específicos aplicam-se automaticamente no simulador oficial.

Tabela D ISV 2026 — Redução por Idade Uniforme (reforma 2025)

A alteração mais importante dos últimos anos para stands importadores foi a Lei n.º 45-A/2024, que entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2025 e uniformizou a redução por idade às duas componentes do ISV (cilindrada + ambiental). Antes, a redução aplicava-se apenas à componente ambiental — o que na prática significava que viaturas antigas com motor grande pagavam quase o valor cheio. Desde 2025, a redução é uniforme e mantém-se em 2026.

Idade da viatura Redução Paga do ISV total
Até 1 ano 10% 90%
>1 a 2 anos 20% 80%
>2 a 3 anos 28% 72%
>3 a 4 anos 35% 65%
>4 a 5 anos 43% 57%
>5 a 6 anos 52% 48%
>6 a 7 anos 60% 40%
>7 a 8 anos 65% 35%
>8 a 9 anos 70% 30%
>9 a 10 anos 75% 25%
>10 anos 80% 20%

O sweet spot para stand preparador em 2026 é entre 3 e 7 anos: redução entre 35% e 60%, viatura ainda com apelo comercial e sem problemas mecânicos típicos de veículos com >100.000 km.

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PHEV em 2026: o novo limite dos 80 g/km Euro 6e-bis

Os híbridos plug-in continuam a pagar apenas 25% do ISV total (redução de 75%) em 2026. A alteração de 2026 é o limite de emissões para aceder a esse desconto:

  • PHEV homologado em normas anteriores (Euro 6d, Euro 6d-ISC-FCM): autonomia eléctrica WLTP ≥ 50 km + emissões CO₂ ≤ 50 g/km
  • PHEV homologado em Euro 6e-bis: autonomia WLTP ≥ 50 km + emissões CO₂ ≤ 80 g/km

A subida de 50 para 80 g/km em Euro 6e-bis compensa a mudança de método de homologação, que fez subir os valores WLTP em 15-25% face ao método anterior — mesma viatura, valor CO₂ diferente conforme o standard. Sem este ajuste, muitos PHEV competitivos ficariam automaticamente fora da redução ISV.

Verificar sempre no certificado de conformidade (COC) qual a norma de homologação da viatura importada antes de comprar.

BEV e hidrogénio: isenção total de ISV mantida

Veículos 100% eléctricos (BEV) e a hidrogénio mantêm em 2026 a isenção total do ISV. Também isentos de IUC (art. 5.º Código IUC). Este é o segmento com maior taxa de crescimento em importação usada — nicho em expansão para stands preparadores que dominem infraestrutura de carregamento, testes de bateria (SOH — State of Health) e argumentário técnico.

Atenção: um Tesla Model 3 usado importado da Alemanha por 22.000€ tem ISV zero + IUC zero — vantagem competitiva enorme face à mesma viatura em stand nacional que a pagou ao preço PT.

Legalização de carro UE: 6 passos oficiais 2026

1. COC — Certificado de Conformidade (100-350€)

Documento emitido pelo fabricante que atesta que a viatura cumpre normas europeias. Obrigatório para matricular em Portugal. Custo depende da marca (BMW, Mercedes, Audi cobram 250-350€; marcas generalistas 100-150€). Alternativa: certificados por Centros de Inspecção autorizados quando o COC é impossível de obter.

2. DAV — Declaração Aduaneira de Veículo (20 dias úteis)

Submeter no Portal Aduaneiro da AT em 20 dias úteis desde a entrada da viatura em território nacional. Prazo excedido = coima a partir de 250€. Documentos: COC, factura ou contrato de compra, documento único automóvel (Fahrzeugbrief em DE, permiso de circulación em ES), comprovativo de entrada em PT.

3. Inspecção Categoria B pré-matrícula (93,52€)

Realizada em centro autorizado IMT antes da matrícula. Verifica conformidade técnica e identifica o veículo. Custo típico com IVA em 2026: cerca de 93,52€.

4. Liquidação ISV

Após DAV validada, a AT emite nota de cobrança do ISV calculado. Pagamento antes da matrícula. Simulador oficial: Portal Aduaneiro AT — Simulador ISV.

5. Matrícula IMT + Registo Conservatória (155€)

Após ISV pago: pedido de matrícula IMT (emolumentos ~55,30€ dentro do prazo) + registo automóvel na Conservatória + emissão de chapas (25-40€). Prazo total desde entrada em PT até matrícula concluída: 60 dias.

6. IUC anual (calendário unificado 2027)

Em 2026 ainda se paga no mês do aniversário da matrícula. Em 2027 entra em vigor o calendário anual único (Fevereiro). Ver guia IUC 2026 nos stands para detalhes sobre quem paga na venda de usado.

Custo real total para stand importador: exemplo prático

SUV 2.0 diesel Euro 5 com 5 anos, 155 g/km CO₂ WLTP, comprado na Alemanha por 22.000€. Custos somados típicos em 2026:

Rubrica Valor típico
Preço compra Alemanha 22.000€
ISV bruto (Tabela A + B) ~8.500-12.000€
Redução idade 43% (>4 a 5 anos) −3.655-5.160€
ISV líquido ~4.845-6.840€
Adicional diesel +500€
Transporte DE → PT (transporter) 700-1.400€
COC 100-350€
Inspecção B 93,52€
IMT + registo + chapas 120-160€
IUC 1º ano 150-400€
CUSTO TOTAL (compra + legalização) 28.500-31.750€

O mesmo modelo em stand nacional está tipicamente à venda entre 33.000€ e 38.000€. Margem preparador: 3.000-7.000€ por viatura. Descontando gastos operacionais (transporte administrativo, preparação estética, tempo parado 30-45 dias, comissão comercial), margem líquida real é tipicamente 1.500-3.500€ por viatura.

Reduções especiais ISV 2026

  • Pessoas com deficiência ≥ 60%: isenção total de ISV com limites de CO₂. Periodicidade de 10 em 10 anos por beneficiário. Requisitos técnicos apertados — consultar Portal AT.
  • Famílias numerosas (≥3 dependentes menores, 2 com idade <8 anos, veículo ≥6 lugares): redução de 50% do ISV, dentro de limites de emissões.
  • Táxi / TVDE / rent-a-car sem condutor: regime de tributação reduzida ou isenção conforme utilização declarada e prazo mínimo de afectação. Requisitos rigorosos e sujeitos a inspecção da AT.
  • Comerciais N1 ≤3.500 kg: tributados pela Tabela B específica, adicional diesel reduzido de 500€ para 250€. Reduções de 10-50% conforme critérios técnicos.
  • Autocaravanas: Tabela B específica, geralmente mais favorável que passageiros equivalentes.
  • Veículos históricos certificados: regime favorável, mas quase sempre limitado a viaturas anteriores a 1970. Não confundir com “carro velho com 30+ anos” — a certificação exige matrícula de coleccionador.

Nichos onde a importação continua rentável em 2026

Com Tabela B a punir agressivamente CO₂ altos e Tabela D a favorecer viaturas entre 3-7 anos, os nichos rentáveis para stand preparador em 2026 são:

  • SUV compactos gasolina/PHEV com CO₂ ≤ 130 g/km — VW T-Roc TSI, Peugeot 2008, Ford Puma, Kia XCeed PHEV. Tabela B contida, procura alta em Portugal.
  • BEV usados — Tesla Model 3, VW ID.3/ID.4, Kia Niro EV, Renault Megane E-Tech. ISV zero + IUC zero + preços DE historicamente 15-25% abaixo de PT.
  • Comerciais N1 diesel — Ford Transit, VW Transporter, Renault Trafic. Tabela B específica + adicional diesel reduzido a 250€.
  • Premium diesel jovens (3-5 anos) com CO₂ ≤ 145 g/km — BMW Série 3 320d, Audi A4 35 TDI, Mercedes C220d. Diferencial DE→PT compensa quando o CO₂ fica abaixo do salto para 41,54€/g/km.

Nichos a evitar: SUV grandes diesel com CO₂ ≥ 175 g/km (Tabela B destrói margem), viaturas com CO₂ entre 195 e 200 g/km (salto para 193,01€/g/km), e viaturas com mais de 10 anos onde o valor comercial baixo não compensa o custo de legalização fixo.

Conclusão: importar bem em 2026 exige simular antes de comprar

Importar carros da UE para stand em Portugal continua rentável em 2026, mas as margens são apertadas e a diferença entre importação lucrativa e importação com prejuízo está no cálculo prévio. Cada viatura tem que passar pelo simulador oficial ISV da AT ANTES da compra na origem — não depois.

Regras práticas que separam preparadores rentáveis dos que fecham em 12 meses:

  1. Simular ISV com dados WLTP reais do COC (não valores catálogo antigos)
  2. Ficar longe dos saltos de escalão Tabela B (145→146, 175→176, 195→196 g/km)
  3. Comprar preferencialmente 3-7 anos (sweet spot Tabela D)
  4. Verificar norma de homologação Euro no COC para regime PHEV
  5. Pré-negociar transporte com contratos anuais (poupa 200-500€/viatura)

Nota: este artigo não substitui aconselhamento fiscal ou aduaneiro. Para casos concretos com particularidades técnicas, consultar contabilista certificado + despachante aduaneiro reconhecido pelo IMT.